Faz tanto tempo que eu não pinto esse quadro. A tela ficou amarelada com o tempo, as tintas secaram, o solvente evaporou, os pinceis endureceram e ficaram espalhados pela casa,... a minha inspiração eu não sei aonde foi parar.
O último quadro pintado desbotou, perdeu qualquer valor. Ficou no quarto de despejo, perdido entre as caixas. Zero conflito, zero interesse.
E isso são horas de pensar nisso?!!! Lampejos das madrugadas insones. Daí eu me pergunto qual seria a matéria-prima, a fonte de inspiração para que eu voltasse à pintar um novo quadro. Talvez, no metaverso, num momento de delírio ou fuga de realidade, porquê, nessa realidade, nenhuma chance e ímpeto para acontecer, nem mesmo sequer a iniciativa de rascunhar novos traços, novos horizontes, novos amores. Não mesmo. Deixe-me com a minha estranheza peculiar.
Se eu fosse pintar, a essência da obra nada teria a ver com performance e relações de poder, mas, ENTREGA. A arte de entregar-se, de ambas as partes, espontaneamente. Os ápices da inspiração e excitação estão na entrega, na cumplicidade de quem faz um bailado juntos, no mesmo ritmo, na mesma sintonia, na vibração que vai fluindo naturalmente.
Eu não consegui pintar essa obra-prima inestimável e nem avistei em nenhuma galeria na qual visitei. Talvez, em outro momento, nem tenha me dado conta disso. Faltou percepção. Quanto mais afoito, menos maturidade.
Das inspirações que eu tive, hoje, estão datadas. Não as pintaria novamente. E das que eu deixei passar... fui relapso, não dei o devido valor, bati o pé, fiz birra, não alcançou a minha alma. Faltou entusiasmo. E tudo isso foi me levando à chegar até aqui, com essa percepção.
Apesar das cores terem desbotado e não ter mais voltado a pintar, nem o 7, a lucidez é um farol instigante, mas tem a sua poesia. O tempo me fez mudar a expressão da minha arte, a minha tela interior está muito mais cheia de nuances e detalhes. Não está exposta, está resguardada, bem cuidada. A minha paisagem é a expressão do meu infinito particular, o meu eu em ebulição, ora em silêncio e adormecido (na maior parte do tempo, o tempo aprimora a técnica), ora em erupção (seja de um desejo inconveniente que brota do nada, talvez seja a carência dando o sinal da sua presença incômoda).
Deixa eu acabar com esse textão por aqui, porquê nem artista sou.